terça-feira, 23 de setembro de 2014

Deixa-me seguir para o mar | Caminhos para o Norte do Brasil


Hoje, 23 de setembro de 2014, tive um pesadelo.
Pesadelo recorrente. Sempre quando uma grande viagem se aproxima, que não consigo pegar o avião. Não chego a tempo ao aeroporto. Não consigo arrumar a minha mala na véspera, me enrolo, o despertador não toca. Vai dando um nervoso que travo e quando vejo não dá mais tempo e viagem cancelada. Minha terapeuta chama isso de culpa, culpa de estar indo e deixar aqui a família. Culpa de achar que estou tendo uma oportunidade melhor do que eles. Nossa cabeça é complexa, sabemos. E de simples... A simplicidade... Que coisa difícil para mim.

Essa próxima viagem Colômbia x Cuba, parece estar tudo planejado. Faltam hoje alguns detalhes, mas bem bobos. Até separar as roupas, as poucas, já estou separando, porque depois não vai dar tempo de secar. Hoje, pensando aqui veio o Acre como um próximo destino. Conheço hoje, o norte quase inteiro, e nada do Acre, que sempre achei que seria o primeiro a visitar. Veio esse lugar que tanto já li, que já cheguei tão perto, e não fui até lá. Ju, uma querida flor que a vida colocou no caminho, nascida no Acre, fica lá até janeiro, antes de voltar aqui para o Rio. Vontade de ir, encontra-la. Respirar mais uma vez o Norte.

Norte do país que esta recorrente esses dias, ouvi uma série de músicas de carimbó. Ai o carimbó. Quantos rodopios, me trouxe tantas saudades de dançar descalça rodopiando suada naquele pedaço de areia e água. Sem duvidas hoje, digo que essa viagem foi a melhor que já tive em vários aspetos. O lugar, a energia, a querida amiga companhia, todos os encontros, que belos encontros, tudo, tudo. Sintonia, se atraímos o que emanamos, quanto amor estávamos emanando naqueles dias.

A primeira vez que me impressionei com o tamanho de um rio. | Rio Madeira - Porto Velho, Rondônia

Viajar pelo Norte de barco era um desejo muito antigo. Conheci Rondônia num encontro de geografia, em 2008. Encontro da arte dos encontros que transformou a vida num jardim repleto de flores paulistas. Em Rondônia presenciei muitas pessoas queridas seguiram pelo Rio Madeira, até o Rio Negro, Rio Amazonas, Tapajós e seguiram até o Macapá e Algodoal. E que processo... Acompanhei com o coração esse pedaço enorme do Brasil que não conhecia. Eu não fui, infelizmente, e fiquei com esse gostinho de barco e tanto rio a caminho do mar guardado. Sabia que ia chegar a minha hora de me balançar naquelas redes.

Em 2013, num dia de profunda triste, dia do enterro de uma querida e jovem amiga, que linda, morreu de câncer aos 26 anos, e no dia 2 de novembro, dia dos finados, fez um lindo dia de sol no Rio de Janeiro, e depois do enterro fui para a praia. Praia, água salgada, que privilégio o horizonte, o descarrego, tanta energia. Ela amava aquelas águas e eu amava ela e também o mar. Seu Cosmos tem maneiras estranhas e sempre maravilhosas de atuar, sem questionar seguimos. O impulso pela vida as vezes vem da sensação de perda que a morte dá. Infelizmente mas cedo ou mais tarde essa sensação vem e a lembrança do curto período que temos nessa jornada. Tirando as indagações, sabemos que é rápido e que tudo, tudo passa.


Na praia, olhando as ondas, pé na areia, cabeça tentando entender as dores do coração, estava com a Julia, um presente com sabor de jujuba em forma de amiga. E réveillon, pensamos. Vamos para onde? Ju, sempre tive vontade de navegar de barco pelo norte... Todo rio vem parar aqui, no mar. Renovar. Descobrir outros reinos, agora os reinos das águas doce. Vamos? E ela disse, vamos sim. Jujuba nunca me disse não. E assim, naquele mesmo dia reservamos nossas passagens de avião e dia 25 de dezembro de 2014 fomos para o Norte... Trocamos de água, mas no final todo rio deságua no mar.


Eu e Jujuba, fazendo parte do caminho dos rios para o mar... Rio Amazonas, no barco, Rio Tapajós, pedaços de Alter do Chão.

E Mario Quintana... Aquele que nos acompanhou na nossa viagem...

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